Michel Temer discute com ministros novas gravações de delatores
Após chegar a Brasília por volta das 5h50 de viagem à China, o presidente Michel Temer conversou nesta quarta-feira (6) com ministros no Palácio do Planalto para avaliar o cenário político após a reviravolta na delação da JBS, com a entrega de novos áudios, e discutir os efeitos de uma eventual segunda denúncia contra ele que poderá ser apresentada pela Procuradoria Geral da República (PGR).
Depois de desembarcar, Temer foi para o Palácio do Jaburu, residência oficial da Presidência. Ele chegou ao Palácio do Planalto por volta das 9h15 e iniciou uma rodada de conversas com ministros. Falou com o chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, e com o secretário-geral da Presidência, Moreira Franco, que ficaram em Brasília durante a visita presidencial à China.
Temer retornou ao Brasil em meio a um turbilhão provocado pela decisão do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de abrir investigação para apurar eventuais omissões de informação nas delações de executivos da J&F, dona do frigorífico JBS.
No material entregue à PGR na semana passada para complementar a deleção da JBS, parte de um diálogo entre Joesley Batista e Ricardo Saud tratam de uma suposta ajuda do ex-procurador Marcello Miller, quando ainda integrava a procuradoria, para os executivos fecharem o acordo de colaboração.
A defesa de Temer solicitou ao STF acesso aos áudios e estuda a possibilidade de tentar anular a delação. A primeira denúncia contra o presidente, apresentada em junho pelo crime de corrupção passiva e cuja tramitação foi barrada pela Câmara dos Deputados, se baseou na delação da JBS, que deve ser usada em uma eventual nova acusação.
Após participar do ato de filiação do senador Fernando Bezerra (ex-PSB-PE) ao PMDB, nesta quarta, o ministro Eliseu Padilha disse a jornalistas que o presidente “está tranquilo” e destacou a força do cargo.
“Ele esteve e está totalmente tranquilo em relação ao que ele fez, ele sabe o que fez. Todas as manifestações dele, no curso desse tempo, mostraram ele com veemência repudiando as acusações que eram feitas. Muitas das coisas a que ele referiu acabaram se confirmando agora”, disse o chefe da Casa Civil.
Sobre a conversa com Temer, Padilha afirmou que o encontro tratou da viagem à China e de possíveis investimentos de empresários no país asiático no Brasil. Questionado se o presidente estava satisfeito com a investigação da conduta do procurador Marcelo Miller – auxiliar do procurador-geral Rodrigo Janot que deixou a PGR para trabalhar em um escritório de advocacia contratado pela JBS – o ministro relatou que Temer afirmou: “Os fatos acabaram mostrando que eu tinha razão”.
Um dia depois de ser denunciado por corrupção passiva por Janot, Temer criticou o ex-procurador em pronunciamento em 27 de junho e afirmou que ele não havia cumprido “quarentena” ao deixar à PGR.
“O cidadão saiu e já foi trabalhar, depois de procurar a empresa para oferecer serviços. Foi trabalhar para essa empresa e ganhou, na verdade, milhões em poucos meses”, disse na ocasião o presidente, que chegou a insinuar que parte do dinheiro poderia ser de Janot.
Segunda denúncia
Ministros, parlamentares e assessores do presidente avaliam, conforme apurou o G1, que a entrega dos novos áudios e o conteúdo das conversas enfraquecem Janot e uma eventual segunda denúncia contra Temer. Ainda na China, o presidente falou em “serenidade” para avaliar o episódio.
Líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), declarou nesta quarta que as novas gravações da JBS mostram que “houve uma armação” por parte dos delatores para atingir o presidente.
“Essas ações, esses ataques especulativos, eles tiveram uma reação muito negativa para o país e é preciso agora que tudo seja passado a limpo”, disse.
Por outro lado, há preocupação no Planalto com a homologação pelo ministro Luiz Edson Fachin, do STF, da delação do doleiro Lúcio Funaro, apontado pelos investigadores da Operação Lava Jato como operador de propinas do deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), preso desde o ano passado.
O material deve ser usado na nova denúncia contra Temer. O discurso de defesa em construção no governo vai reforçar argumentos para desqualificar os delatores e Janot.
Também presente ao ato de filiação de Fernando Bezerra, o ministro Moreira Franco declarou que, mesmo que a denúncia seja apresentada, o presidente está “absolutamente convencido” de que a justiça será feita e que Temer “sempre agiu corretamente”.
Na terça-feira (5), o ministro Antonio Imbassahy (Secretaria de Governo), responsável pela articulação política do Planalto, afirmou que as suspeitas de irregularidades na delação vão “fragilizar mais ainda” eventuais acusações
“(O governo) já tinha uma posição de muita segurança, de muita robustez da base e a confiança na biografia do presidente Michel Temer. Evidentemente que esse é um fato que vai fragilizar mais ainda essas acusações que foram a ele dirigidas”, disse o ministro.
Outro episódio que provoca receio no entorno de Temer é a ação da que localizou, segundo a Polícia Federal, mais de R$ 51 milhões em um apartamento em área nobre de Salvador, que seria usado pelo ex-ministro Geddel Vieira Lima. Questionado nesta quarta sobre a operação, Eliseu Padilha apenas disse que “cada um responde pelos seus atos”.
Congresso Nacional
Auxiliares de Temer afirmam que ele vai conversar ao longo do dia com ministros e líderes partidários também para sentir o clima político no Congresso Nacional. Nesta quinta-feira, feriado de 7 de setembro, ele abre o desfile cívico-militar na Esplanada dos Ministérios, em comemoração aos 195 anos da independência do Brasil.
Conforme a assessoria da Presidência, nesta quarta Temer esteve com o ministro da Justiça, Torquato Jardim, e recebeu em audiência a advogada-geral da União, Grace Mendonça, e os líderes do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), e na Câmara, Aguinaldo Ribeiro (PP-PB).
Ministros e parlamentares consideram que a semana foi positiva no Congresso, que concluiu a aprovação da mudança da meta fiscal de 2017 e 2018 para um déficit de até R$ 159 bilhões.
O Senado, por sua vez, aprovou a medida provisória que cria a Taxa de Longo Prazo (TLP) para empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Também foi aprovada a MP da renegociação das dívidas de estados e municípios com o Instituto Nacional da Seguridade Social (INSS) vencidas até abril.
Na Câmara, passou em primeiro turno o texto-base da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que extingue as coligações partidárias e cria uma cláusula de barreira para tentar reduzir o número de partidos no país. A retomada da votação está prevista para a próxima semana, junto com outros temas da reforma política, como a criação do fundo eleitoral para financiar as campanhas políticas.
Auxiliares de Temer reconhecem que, somente após a discussão das mudanças nas regras eleitorais, será possível tentar votar a reforma da Previdência.
G1
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